Domingo, 24 de Maio de 2020
Mercado

Demanda aquecida e alta da ração fazem preço do ovo atingir recorde
São Paulo, SP, 07 de Abril de 2020 - Os brasileiros estão consumindo mais ovos durante a quarentena do coronavírus. A demanda, que chegou a superar o ritmo aquecido do Natal nas duas primeiras semanas de isolamento social, se somou aos custos mais altos com ração, o que fez a cotação do produto disparar.

Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), mostrou ontem que o preço do ovo em Bastos (SP), uma das principais regiões produtoras, atingiu na última quinta-feira o maior nível da série histórica, iniciada em 2013. Na semana passada, o preço médio do ovo branco no município paulista aumentou 4,6%, para R$ 117,30 a caixa com 30 dúzias. A caixa do ovo vermelho subiu 5,56%, atingindo R$ 137,39.

O movimento de forte valorização do ovo não é exclusivo do Brasil. Em meio à corrida dos consumidores para fazer estoques para a quarentena, os preços do produto triplicaram nos Estados Unidos.

À frente da maior produtora de ovos do Brasil, Leandro Pinto, do Grupo Mantiqueira, afirmou que, em meados de março, a reposição de ovos no varejo chegou a ser um problema. “Houve falta generalizada”, disse. Inicialmente, a demanda aumentou 30%, mas o movimento se estabilizou após as duas primeiras semanas de quarentena. Atualmente, a demanda está 10% maior.

Mas o consumo aquecido e a forte alta dos preços não garante o lucro dos produtores, assegurou o presidente da Mantiqueira. A apreciação do dólar encareceu o milho, que já estava caro. Aqueles que não formaram estoques do grão antecipadamente têm prejuízo em alguns lotes de aves, segundo Pinto.

“Quando você compara o poder de compra, estamos mais pobres. Nossa moeda é o ovo e não conseguimos repor os custos na mesma [proporção]”, disse Pinto, citando dados do mercado de ovos de Pernambuco. Na Ceasa do Estado nordestino, o preço médio da caixa com 30 dúzias de ovos brancos foi de R$ 126 em março, alta de 16,6% ante a cotação de igual período do ano anterior. Na mesma base de comparação, o dólar médio subiu 26,9%, de acordo com levantamento do Valor Data.

“Os preços de milho e soja são dolarizados”, reforçou o presidente da Mantiqueira, acrescentando que as vitaminas que compõem a ração das galinhas também ficaram mais caras por causa do dólar. De fato, milho e soja estão mais caros. Em março, o preço médio do milho atingiu R$ 57,42 a saca, de acordo com o indicador Esalq/BM&FBovespa, o que representa uma aumento de 44% ante igual período do ano passado. No caso da soja, o preço médio subiu 21%, para R$ 94,96 a saca, conforme o indicador Esalq/BM&FBovespa para o grão no porto de Paranaguá.

A despeito dessas dificuldades, o empresário garante que não vai reduzir a produção de ovos “mesmo tomando prejuízo em alguns lotes” por causa do custo da ração. “Seria covardia deixar o mercado desabastecido. Causaria mais inflação”, afirmou o presidente da Mantiqueira.

Mesmo em meio à crise, o grupo manteve o projeto de ampliação da capacidade de produção. Em julho, entra em operação a terceira granja da Mantiqueira, em Cabrália Paulista, no interior de São Paulo. A capacidade de alojamentos da unidade de Primavera do Leste (MT) também está sendo ampliada, e deve entrar em operação em setembro, de acordo com Pinto. Com isso, a capacidade de produção anual de ovos da companhia deve aumentar em 10%, para 2,5 bilhões. A terceira granja fica na mineira Itanhandu, a sede da companhia. (Com Dow Jones Newswires)
(Valor Econômico) (Luiz Henrique Mendes, Marina Salles e Fernanda Pre)
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