Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020
Saúde Animal

Na China, comércio de animais vivos favorece novos vírus
São Paulo, SP, 24 de Janeiro de 2020 - Aglomerações urbanas gigantescas, a cultura de consumir alimentos pouco cozidos - quando não totalmente crus - e a criação caseira de animais para fins alimentares são alguns dos fatores que explicam a recorrência de surtos dos chamados vírus zoonóticos na China.

Apenas neste século, o país viu quatro ondas importantes de infecções em massa por vírus. “Ainda não há como determinar com certeza como esse novo vírus infectou seres humanos”, afirmou ao jornal de Nova Déli “Mint”, a virologista Shobha Broor, do Instituto de Ciências Médicas da Índia.

“Mas é possível dizer que a interação pouco segura entre humanos e animais - que, diferentemente de outros lugares, costumam ser vendidos vivos em mercados lotados - favorece a disseminação de vírus e a transmissão para humanos".

No caso atual, a principal suspeita endossada por Pequim é de que o reservatório inicial do coronavírus tenha sido o morcego, que o transmitiu a mamíferos como a civeta (animal de pequeno porte comum na Ásia, famoso por melhorar o sabor do grão café que passa pelo seu sistema digestivo), que o repassou aos humanos.

A primeira grande onda de coronavírus deste século na China se deu em 2002 e foi associada ao mercado de aves vivas. A infecção se espalhou por 37 países, atingiu 8.098 pessoas e matou 774. Infecção semelhante, também associada a aves, começou em 2013.

Em 2019, outra cepa de coronavírus causou a morte de pelo menos 30% do rebanho suíno chinês. O vírus, identificado como o responsável pela Peste Suína Africana (PSA), não atingiu os humanos, mas ampliou a demanda chinesa por proteína animal - não só suína -, causando um desequilíbrio global nos preços. No Brasil, a peste causou a alta da carne bovina.

Estima-se que o marco-zero da nova infecção tenha sido um mercado de animais vivos de Wuhan - local frequentado por milhares de pessoas por dia, do qual a infecção se espalhou rapidamente. Segundo especialistas, autoridades de segurança alimentar e vigilância sanitárias chinesas têm também grande dificuldade para fiscalizar a criação de aves e porcos em galinheiros e chiqueiros caseiros - comuns na periferia de centros urbanos e em áreas rurais do país. Em mercados populares e feiras livres, também é rotineiro o consumo de alimentos preparados com animais como morcegos, escorpiões e outros invertebrados à margem da fiscalização sanitária.
(Valor Econômico) (Roberto Lameirinhas )
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