Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
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Safra do milho deve crescer pelo segundo ano consecutivo no RS
Porto Alegre, 16 de Setembro de 2019 - Marcada pelos altos e baixos ao longo das últimas décadas, a safra do milho no Rio Grande do Sul começa a ser plantada com perspectiva de saldo positivo pela segunda temporada consecutiva. No período 2019/2020, a área semeada deve chegar a 771 mil hectares no Estado, aumento de 1%, em torno de 8 mil hectares a mais com o cereal frente ao último ciclo. A expectativa inicial é de colher 5,94 milhões de toneladas do grão, incremento de 3,65% frente à safra 2018/2019, conforme dados da Emater.

O presidente da Associação dos Produtores de Milho do Rio Grande do Sul (Apromilho-RS), Ricardo Meneghetti, lembra que o agricultor vinha se mostrando reticente com a cultura, em razão do alto custo de produção e baixa remuneração. O cenário de possível quebra que pode chegar a 42 milhões de toneladas na safra nos Estados Unidos, a demanda crescente da indústria local e o preço da saca levam os produtores a olharem com mais atenção para o grão.
– Com as condições climáticas adversas no Exterior e os atuais patamares de valor para o grão, o produtor teve um pouco de mais ânimo e praticamente manteve a área do ano passado – constata Meneghetti.

Na contramão, o agricultor Gerson Fitz, de Novo Machado, no Noroeste, expandiu a área. Entre 2009 e 2019, passou de cem para 350 hectares, sem irrigação, e hoje o cereal ocupa quase 70% da propriedade. Percentual que será mantido para o ano que vem. Com 100% do plantio finalizado para a safra de verão, Fitz costuma exportar cerca de 20% da produção. O restante comercializa para a indústria, principalmente de suínos.

– Sempre tive bom mercado para o milho e boa média de preços. E ainda conseguimos tirar a safra e a safrinha – salienta o produtor.

Por ser uma cultura mais arriscada em relação às demais, com ameaça de perda de safra em caso de períodos sem chuva ou intempéries, o gerente adjunto da Emater de Santa Rosa, José Vanderlei Waschburger, relata que uma série de produtores havia migrado para a soja. Neste sentido, a melhora de cenário para a comercialização contribuiu para que muitas propriedades revisassem seus planos.
– Existe uma perspectiva boa, o preço está estabilizado. Em alguns casos, o produtor consegue fazer contrato de venda futura e, com isso, tem segurança na comercialização – observa Waschburger.

Rio Grande do Sul paga mais caro

Atualmente, o plantio do milho já foi realizado em boa parte dos municípios das regiões Noroeste e Norte. A tendência é de que seja finalizado em todo o Estado até outubro. Em meio a esse contexto, o consultor em agronegócios Carlos Cogo explica que os fatores externos vêm alterando a dinâmica do mercado brasileiro de milho. A projeção de retração de safra no Exterior abriu espaço para as exportações do grão plantado no Brasil.

Entre janeiro e agosto, as vendas internacionais chegaram US$ 3,9 bilhões, a maior cifra da história para os oito primeiros meses de um ano. Por outro lado, a China enfrenta surto de peste suína africana e tem comprado mais carnes de suínos e de aves, pressionando a indústria brasileira na busca por cereais para a alimentação dos animais.

Cogo ressalta que o crescimento da produção gaúcha de milho não fará frente às necessidades do setor. Puxada pelos segmentos de aves e suínos, a demanda estadual chega a aproximadamente 6,5 milhões de toneladas anuais. Por isso, os frigoríficos no Estado compram, em média, de 1 milhão a 1,5 milhão de toneladas de grãos a cada ano no Paraná e no Centro-Oeste para atender às suas plantas.

– O déficit gaúcho é muito grande. Não é o aumento de 3% ou 4% na próxima colheita que vai atenuar o problema – pondera o consultor.

Por não ser autossustentável no milho, o Rio Grande do Sul costuma pagar mais pelo cereal em relação aos demais Estados produtores. Neste ano, o preço médio da saca está na faixa dos R$ 35, patamar pouco abaixo do verificado no ano passado, mas o terceiro maior na década em valores nominais. Para efeito de comparação, o valor fica 10% acima do praticado no Paraná, o outro grande produtor do sul do país.

Insuficiência afeta competitividade

Responsáveis pela maior parte da demanda por milho no Rio Grande do Sul, a avicultura e a suinocultura são as principais afetadas pela insuficiência produtiva gaúcha. As entidades dos dois setores estimam que a necessidade de buscar fora os grãos que faltam nas indústrias locais geram custos extras de R$ 210 milhões com logística a cada ano. Além disso, a perda de arrecadação de ICMS para os cofres gaúchos chega a R$ 119 milhões.

Essa situação afeta a competitividade da indústria gaúcha e pode tornar insustentável a operação de algumas empresas em solo gaúcho, na percepção de Rogério Kerber, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul (Sips).

– Temos que concorrer com outras unidades da federação, principalmente o Paraná, que são grandes produtoras de proteína animal e autossuficientes em milho. Se o Rio Grande do Sul não caminhar para o mesmo sentido, tende a ter dificuldade em reter investimentos – destaca.

Ao mesmo tempo em que os gaúchos lutam contra o déficit de milho para a produção de proteína animal, o maior mercado comprador do mundo intensificou os pedidos. Por conta da peste suína africana que acometeu parte de seu rebanho, a China intensificou a compra de carne suína. De janeiro a agosto de 2019, o Brasil comercializou US$ 304,3 milhões do produto, alta de 48% na comparação com igual período de 2018, segundo dados do Ministério da Economia.

Parte expressiva dos pedidos é atendida pelo Estado, que tem três das 10 plantas brasileiras habilitadas a vender ao país asiático. Para Kerbs, o aumento nos embarques externos ainda não se refletiu na demanda por milho na indústria, pois o mercado interno deve seguir estável enquanto a recuperação da economia não deslanchar.

Embarque de carne de frango para os chineses cresce 37%

De quebra, a demanda chinesa por carne de frango também se intensificou. Nos primeiros oito meses do ano, os embarques verde amarelo totalizaram US$ 737,8 milhões, expansão de 37%.

Responsável por quase metade da exportação brasileira do setor, o Estado não foi contemplado nas habilitações chinesas anunciadas na segunda-feira, mas duas plantas já foram vistoriadas e aguardam sinal verde da China. Hoje, o RS tem grande demanda do Oriente Médio e da África. Com o mercado interno, a avicultura deve precisar de ainda mais milho nos próximos anos.

– O setor não comporta mais conviver com o alto custo de trazer milho de outros Estados e até países. De momento (o déficit), não inviabiliza as plantas, mas pode afastar investimentos. Se perdurar por mais um ou dois anos, vamos começar a ter problemas – salienta José Eduardo dos Santos, diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

Para Santos, além da quantidade, há problema na qualidade pela deficiência na secagem do grão, o que gera aumento no nível de toxinas. A situação prejudica a alimentação dos animais e a conversão da proteína em carne.

Equilibrar oferta e demanda é desafio

Pelo sétimo ano consecutivo, o produtor Eny Fiorentin aumentou a área de milho na propriedade em Ronda Alta, no Norte. Vendo na rotação de culturas aliada para melhorar o solo e obter resultados expressivos na soja, Fiorentin vem expandindo o espaço do cereal sem irrigação em até 20% ao ano e na safra chegará a 45 hectares.

O agricultor relata que sempre teve comprador garantido para o grão, o que o estimula a apostar no cereal. Fiorentin vende a maior parte da produção para a Cooperativa Tritícola Sarandi (Cotrisal), que posteriormente negocia o produto para criadores de aves e suínos:

– Se o tempo correr bem, se ganha mais com o milho do que com a soja. Claro que o milho tem mais risco, caso dê seca por uns 20 dias entre novembro e dezembro. Sem isso, a safra é garantida – diz.

Para que mais produtores gaúchos sigam os passos de Fiorentin e intensifiquem a produção, o Estado está estruturando um pacote de medidas para resolver o descompasso entre oferta e demanda do grão. As iniciativas atendem ao apelo do setor produtivo e farão parte do Programa Estadual do Milho, cuja criação deve ser formalizada nos próximos meses. Em 2017, iniciativa semelhante foi lançada pelo governo de José Ivo Sartori.

Assistência técnica e linhas de crédito para investimentos

Diretor do Departamento de Política Agrícola da Secretaria da Agricultura, Ivan Bonetti conta que devem ser implementadas ações de assistência técnica e oferta de linhas de financiamento para estimular investimentos em irrigação e armazenagem, por exemplo.

– Se chegou ao risco de empresas saírem do Estado por falta de insumo. Muitos produtores migraram para a soja. Vamos fazer um trabalho para incentivar que retornem ao cultivo de milho – promete Bonetti.

A iniciativa começou a ganhar forma na reunião da Câmara Setorial do Milho, em junho, e espera o aval do governador Eduardo Leite para ser implementada. Segundo Bonetti, a tendência é de que o programa seja colocado em prática em 2020. A partir daí, seriam necessários cinco anos para garantir o abastecimento do insumo nos setores de aves, bovinos e suínos.
(Zero Hora ) (Fernando Soares )
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