Quarta-feira, 15 de Julho de 2020
Política Agrícola

Após divergências com a ministra, presidente da Embrapa é demitido
Brasília, 18 de Julho de 2019 -

Em rota de colisão com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o presidente da Embrapa, Sebastião Barbosa, foi demitido ontem, após nove meses à frente do cargo. Pesquisador de carreira aposentado, Barbosa assumiu o posto com o aval do então ministro Blairo Maggi, para um mandato de dois anos - prorrogável por igual período.

Em recente café da manhã com 130 parlamentares da bancada ruralista, o presidente Jair Bolsonaro já havia sinalizado uma troca no comando da estatal ao defender mudanças na gestão da empresa. Há duas semanas, a ministra da Agricultura também anunciou, em videoconferência com a cúpula da Embrapa, que pretendia substituir a gerência da empresa, incluindo os diretores, cujos mandatos vencem no próximo dia 27 de julho.

O sucessor de Barbosa, no entanto, ao que tudo indica, não deve ser necessariamente um servidor da Embrapa, tendência que vem se repetindo nas últimas décadas. Ontem, no fim da tarde, Tereza consultou os ex-ministros da Agricultura Roberto Rodrigues e Alysson Paolinelli a respeito dos novos rumos da estatal, apurou o Valor.

"Ainda não tem nome. Vamos entrar num processo de seleção. Já tem um presidente [interino], o Celso Moretti, que é da diretoria da Embrapa. Vamos fazer tudo com muita calma", afirmou ontem a ministra, após recepcionar os ministros de Agricultura dos BRICS, que estão em Brasília para reunião preparatória para a reunião da cúpula do bloco que ocorrerá em novembro no Brasil.

Fontes do setor manifestavam insatisfação com a gestão de Barbosa, que assumiu a Embrapa após vencer um disputado processo de seleção que contou com 16 candidatos. A própria ministra vinha confidenciando a interlocutores que desejava um presidente mais "dinâmico" e "alinhado" com o atual governo, disposto a tornar a empresa mais moderna, cortar gastos e reduzir unidades avaliadas como obsoletas e pouco produtivas.

A ministra da Agricultura apoia a reestruturação da Embrapa, o que inclui medidas já em curso, como um programa de demissão voluntária, que contou com a adesão de 1,3 mil servidores. A estatal possui 9,5 mil empregados e o governo tinha como meta a adesão de 3 mil funcionários ao programa.

Procurado pela reportagem, o ex-presidente da Embrapa considerou sua saída "abrupta" e fez duras críticas à ministra da Agricultura. Segundo ele, Tereza vem insistindo em cortes sistemáticos no orçamento de R$ 3,6 bilhões previsto para a Embrapa neste ano - até agora, já foram contingenciados 42% deste montante. O pesquisador avalia que os cortes podem comprometer a competitividade da empresa estatal de pesquisas.

Ao Valor, Barbosa argumentou que a empresa não recebe investimentos há mais de cinco anos e possui mais de 80% de suas verbas travadas para o custeio da folha de pagamentos, o que compromete a capacidade de atuação da estatal.

Dizendo ser alvo de um processo de "fritura" pelo governo Bolsonaro por discordar da atual linha de ação do Ministério da Agricultura, Barbosa citou alguns episódios de desentendimento com a ministra.

O caso mais emblemático envolveu o lançamento de uma variedade de feijão transgênico desenvolvido pela Embrapa, em 24 de abril, mesmo dia em que a estatal comemorou 46 anos. Barbosa conta que Tereza se opôs à novidade e que o ministério tentou barrar a nova cultivar. A nova leguminosa enfrentava a resistência da indústria, que temia a reação do consumidor ao produto geneticamente modificado. "Esse foi um momento em que a fratura ficou exposta", reconheceu uma fonte do ministério.

O ex-presidente da Embrapa também contestou a escolha, por Tereza, da consultoria Falconi para uma auditoria com o intuito de repensar o modelo jurídico da empresa pública, que é considerado engessado. "Não queremos transformá-la num 'departamentozinho' do Ministério da Agricultura e estava vendo que era isso o que queriam", disse Barbosa, ressaltando não ser contra uma reestruturação na Embrapa.

Procurada, a ministra da Agricultura evitou comentar as críticas do ex-presidente da Embrapa. Ela se limitou a dizer que sempre respeitou o trabalho do pesquisador. "Sempre tivemos relação cordial", disse ela.

(valor) (Cristiano Zaia)
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