Terça-feira, 07 de Julho de 2020
Processamento

Marcas apostam em 'carne vegetal' no país
São Paulo, SP, 21 de Maio de 2019 - A estreia das ações da Beyond Meat, empresa que produz hambúrgueres à base de proteína vegetal - de ervilha, neste caso -, em Nova York atraiu o interesse dos investidores. O preço de US$ 25 por ação fixado na véspera da estreia foi facilmente ultrapassado na abertura do pregão, em 2 de maio, para US$ 65 e, desde então, já avançou mais de 30%. Presentes no mercado americano e em alguns países europeus, os hambúrgueres da empresa devem desembarcar em supermercados e lanchonetes brasileiros em até três meses, por meio de acordos com uma grande importadora, apurou o Valor. Mas essa não é a única novidade para esse mercado por aqui. Fabricantes nacionais também apostam em hambúrgueres e linhas completas de "carne vegetal".

A Seara, do grupo JBS - um dos maiores processadores de proteína animal do mundo - começa a produzir no mês que vem um hambúrguer feito a partir da proteína de soja, que busca reproduzir o sabor e a textura da carne bovina. Além da venda em supermercados, a empresa negocia parcerias para oferecer o produto em restaurantes.

Pouco depois, em agosto, a marca planeja lançar uma linha de substitutos à proteína animal. "A Seara se consolida como uma empresa de alimentos, mais do que só proteína animal", diz José Cirilo, diretor executivo de marketing da companhia. Segundo ele, esse mercado cresce anualmente cerca de 40% e, embora não seja possível mensurar qual será seu tamanho nos próximos anos, a Seara espera alcançar 15% de participação em três anos. "Estudamos o mercado há mais de um ano, o lançamento agora não é oportunista, bem como a demanda não é passageira."

De acordo com Alberto Gonçalves Neto, sócio da AGN Consultoria e Negócios, dedicada ao setor de alimentos, o mercado de produtos à base de vegetais é impulsionado pelos hábitos mais saudáveis das gerações mais novas, que também têm influenciado os pais a reduzir o consumo de carne. Pesquisa realizada pelo Ibope no ano passado aponta que cerca de 30 milhões de brasileiros são vegetarianos.

Sem lançamentos anunciados, a BRF, dona de marcas como Sadia e Perdigão, informa que estuda o mercado e as soluções possíveis e que trabalha em parceria com agentes locais e internacionais. "Avaliamos produzir o alimento internamente ou com parceiros, como startups, mas na busca há vários caminhos que podem ser seguidos, como carne sintética feita em laboratório ou carne vegetal homóloga à animal", diz Sérgio Pinto, gerente executivo de inovação da companhia.

No exterior, multinacionais do agronegócio, como a Cargill e a Tyson Foods têm investido em "foodtechs", as startups do ramo alimentício, que desenvolvem carne sintética no laboratório, com alternativas que vão além daquelas feitas à base de vegetais.

Por aqui, as opções à base de vegetais ainda prevalecem. A paulista Superbom, fundada há 90 anos, sempre se dedicou ao mercado vegetariano, mas nos últimos três anos começou a estudar soluções capazes de reproduzir sabor, textura e aparência de proteínas animais. Em maio, a empresa lançou um hambúrguer, um frango em pedaços e um "steak" de peixe, todos à base de proteína de ervilha. Além disso, desenvolveu hambúrgueres à base de grão de bico e quinoa.

"As pessoas se preocupam cada vez mais com a saúde. Não necessariamente querem ser vegetarianas, mas querem mudar de hábitos", afirma David Oliveira, diretor de marketing da Superbom. A empresa investiu R$ 9 milhões no desenvolvimentos dos produtos. A expectativa é que a linha de alimentos congelados que reproduzem proteína animal contribua com acréscimo de 8% no faturamento de 2019.

Também neste mês, o empresário carioca Marcos Leta, criador da sucos Do Bem (vendida para a Ambev em 2016), e seu sócio Alfredo Strechinsky lançaram a primeira versão do Futuro Burger, nome dado ao hambúrguer que desenvolveram em sua empresa Fazenda Futuro, criada por eles com o objetivo de encontrar uma alternativa à indústria da carne. O Futuro Burger 1.0, como foi chamada essa versão do produto, está sendo vendido nas lanchonetes T.T. Burguer, no Rio, e na Lanchonete da Cidade, em São Paulo. A intenção dos empresários é que as versões sejam atualizadas de acordo com as opiniões do público.

"A parceria com restaurantes é muito válida por nos deixar mais próximos dos consumidores", diz Leta. A empresa também fechou acordo com a rede de restaurantes Spoleto para entregar almôndegas e "carne moída" com a mesma base de vegetais usada no hambúrguer, um misto de ervilha, soja e grão de bico.

Os hambúrgueres da Fazenda Futuro estão à venda em unidades do supermercado Pão de Açúcar e do St. Marche, de São Paulo e do Rio, além das redes cariocas La Fruteria e Zona Sul. A embalagem com duas unidades custa a partir de R$ 16,99, valor que Leta espera baixar. O empresário pretende aumentar o volume de produção a ponto de deixar seu hambúrguer de "carne vegetal" mais barato que o tradicional. A meta da Fazenda Futuro é que o produto seja vendido em supermercados de toda região Sudeste no começo de junho e chegue a pontos de venda de outras regiões no fim daquele mês.

Apesar de enxergarem a demanda por esse tipo de produto, as fabricantes reconhecem algumas dificuldades para que o mercado se consolide. Entre as empresas de menor porte, garantir a estrutura de fornecimento é um dos desafios. A Superbom, por exemplo, optou por importar a proteína de ervilha de países da União Europeia, "para manter a textura", de acordo com Oliveira. "Não é um limitador para expandirmos a produção, mas pode ser um entrave para que produtos saudáveis fiquem cada vez mais baratos, por dependermos da flutuação de câmbio", diz o diretor de marketing.

Para todas as companhias, resta saber como converter a tendência de consumo em vendas. "É preciso construir o ambiente de varejo e chegar a um preço adequado", afirma o executivo da BRF, Sérgio Pinto. Outro fator de dificuldade, na visão de Cirilo, da Seara, é saber como expandir o portfólio para esse público, disposto a substituir a carne, mas que não abre mão do sabor e da textura.

Além disso, será preciso vencer a resistência de alguns setores. Na semana passada, o deputado federal Nelson Barbudo (PSL), produtor rural, apresentou projeto de lei a fim de proibir o uso de termos que liguem produtos vegetais aos de proteína animal, como os hambúrgueres de "carne vegetal".

Por enquanto, a maior preocupação das companhias é convencer os consumidores de que as carnes vegetais são suculentas e até "sangram" (com "sangue" de beterraba, na verdade), como as de origem animal. "Não queremos concorrer com o mercado de produtos veganos, queremos competir com os frigoríficos, com as grandes empresas de carne", diz Leta, da Fazenda Futuro.

(Valor) (Raquel Brandão)
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