Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
Exportação

BRF mantém pés no chão para evitar frustrações
São Paulo, SP, 13 de Maio de 2019 - Na sexta-feira, em sua última teleconferência com analistas na função de presidente-executivo da BRF, Pedro Parente pregou cautela. Segundo ele, a peste suína africana na China é uma grande oportunidade, mas não se deve ir com muita sede ao pote sob o risco de que expectativas sejam frustradas.

A orientação na BRF é manter os pés no chão para evitar um voo de galinha. Realismo para não perder de vista que a empresa é sustentada por uma cadeia produtiva das mais longas. "A natureza desse negócio é cíclica. Isso é uma lição que deveria ser aprendida de maneira definitiva", afirmou Parente aos analistas.

No curto prazo, é impossível aumentar de forma significativa a produção de frango. Medidas dessa magnitude levam ao menos um ano, enfatizou Lorival Luz, vice-presidente que assumirá o cargo de CEO global em junho. Na carne suína, o prazo é ainda mais esticado - três anos.

Até lá, os chineses podem ter chegado a uma solução e aplacado o surto de peste suína, o que frustraria aqueles que fizerem investimentos agressivos. "Lá na frente é possível um efeito contrário [na China]: excesso de oferta", preveniu Luz.

Diante dessas preocupações, a única concessão feita pela BRF para aumentar a oferta foi a possibilidade de ampliar o tempo de vida útil das galinhas matrizes que produzem os frangos que são abatidos. Mas essa medida tem efeito pontual e eleva a produção em algo entre 2% e 3%.

É inegável, porém, que o desastre sanitário na China será positivo para as exportações brasileiras de carnes e beneficiará a BRF. Tanto é assim que Parente indicou aos investidores que a meta de recuperar o nível de rentabilidade histórico pode ser alcançada antes do prazo, que é 2020.

Pelos cálculos do BTG Pactual, a margem Ebitda histórica é de 12% (ou 14%, se considerado os efeitos positivos da mudança na forma de contabilizar o arrendamento mercantil). No primeiro trimestre, a margem Ebitda ajustada da BRF foi de 10,2%, incorporada a mudança.

Se foi conservador quando o assunto é aumentar a produção para capturar o aumento da demanda da China, Parente ressaltou que a doença deve ter um impacto muito positivo sobre os preços dos produtos exportados pela BRF.

Neste momento, o ciclo é favorável para a BRF se recuperar. Do lado dos custos de produção, os preços do milho (principal ingrediente da ração de aves e suínos) estão em queda no Brasil, o que deverá se refletir nos resultados da companhia no segundo semestre.

A avaliação de Parente é que a BRF precisa aproveitar esse ciclo favorável para cumprir o objetivo de reduzir o endividamento. "Vamos utilizar esse momento positivo para estar preparado para os momentos [que não sejam]", afirmou. A meta de curto prazo é fechar 2019 com um índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) de 3,65 vezes. No horizonte de longo prazo, a ideia é que essa relação fique mais próxima das 2,5 vezes.

Na bolsa, os investidores ainda se assustaram com o resultado do primeiro trimestre, que veio com prejuízo de R$ 1 bilhão. As ações caíram 2,77% na sexta, fechando a R$ 29,88.

Expurgando o impacto da baixa contábil registrada na venda das operações argentinas, porém, o prejuízo da BRF teria caído quase 15% na comparação anual, de R$ 133 milhões para R$ 113 milhões. Para uma empresa que vinha acumulando resultados cada vez piores ano após ano, foi um alento. Mesmo o sempre cauteloso Parente acredita que os resultados da reestruturação começaram a aparecer.

(Valor) (Luiz Henrique Mendes)
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