Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
Processamento

Para reflexão do setor: NotCo chega ao Brasil com sua maionese sem ovo
São Paulo, SP, 21 de Março de 2019 - Depois de conquistar, em dois anos, uma fatia de 10% do mercado de maionese no Chile com seu produto feito sem ovo e à base de grão de bico, a startup NotCo está desembarcando no Brasil.

Segundo Matias Muchnick, cofundador e presidente da companhia, as vendas começarão em abril na rede Pão de Açúcar. O preço ainda não está definido. Segundo Muchnick, no Chile (um dos maiores mercados de maionese do mundo) a maionese NotMayo custa 10% a mais que o produto vendido pela Kraft. Depois da maionese, a companhia pretende colocar à venda no Brasil leite e sorvete. Ela também tem um iogurte e um queijo cremoso.

O que faz da NotCo um caso de destaque é a aplicação de inteligência artificial para desenvolvimento de produtos que não usam ingredientes de origem animal. Batizado de Giuseppe, o sistema varre enormes bases de dados com informações sobre a composição molecular de ingredientes de origem vegetal e animal, em busca de combinações que permitam reproduzir o sabor e a textura dos alimentos tradicionais. Ao fim desse processo, ele entrega uma receita que é testada pela companhia. "Ele dá uma receita e faz um líquido que é roxo. Então você tem que ir lá e dizer pra ele que um leite não pode ser roxo", conta Muchnick.

De acordo com o executivo, o uso de inteligência artificial acelera o processo de desenvolvimento e reduz custos, fatores cruciais para um segmento que inova muito pouco. "A pesquisa e desenvolvimento no mercado de comida é muito obsoleta. O investimento é baixo porque os resultados são ruins. E isso cria um círculo vicioso", diz. A ideia de criar a companhia veio em 2015 depois de um investimento de dois anos feito por Muchnick e um sócio em uma maionese feita sem ovos.

Segundo ele, o produto chegou a ter um sucesso razoável, mas a receita, encomendada de uma empresa especializada na criação de novos alimentos, não era o que Muchnick queria. Depois de uma temporada de estudos em Berkeley e Harvard (onde conheceu Karin Pichara, outro fundador da companhia) ele decidiu aplicar o conceito de pesquisa de moléculas usado pelo segmento farmacêutico ao mercado de comida. Ele também se aproveitou do crescente interesse dos consumidores por produtos mais saudáveis e com menor impacto ambiental para criar um conceito para a marca que se encaixa nessa demanda.

A companhia ganhou destaque nas últimas semanas ao receber um aporte de US$ 30 milhões em uma rodada que contou com a participação do fundo pessoal do fundador da Amazon, Jeff Bezos, o Bezos Expeditions. O investimento liderado pelo fundo inglês The Craftory (que tem participação da GP Investimentos) contou também com o fundo argentino KasZek, que já tinha colocado US$ 3 milhões na NotCo no fim de 2017. Os recursos serão usados na expansão internacional da companhia.

Além do Brasil, o plano é chegar à Argentina, ao México e aos EUA. Na terra de Donald Trump, a startup terá como competidora a Just, companhia da Califórnia criada em 2011 que está com uma rodada de investimento de US$ 200 milhões em aberto, segundo a agência Bloomberg. A expectativa por lá é se beneficiar da rede de distribuição oferecida pela Amazon e pela rede de supermercados Whole Foods, que pertence à companhia. De acordo com Muchnick, está sendo programado para os próximos seis meses uma degustação dos produtos da companhia para Jeff Bezos. "Estamos tentando um espaço na agenda dele", diz.

Com uma equipe de 70 pessoas, a NotCo teve um crescimento de receita de seis vezes em 2018, diz Muchnick sem revelar valores. Atualmente, a companhia desenvolve e fabrica seus produtos. Mas para ganhar escala, o objetivo é encontrar parceiros que possam fazer a fabricação. A ideia é imitar o modelo da Coca-Cola, que produz a base do produto, o xarope, e deixa a produção do produto final para uma rede de envasadoras, diz Muchnick. Ontem, ele esteve no interior de São Paulo em visitas a possíveis parceiros. Sua expectativa é que entre este ano e 2020 o Brasil se torne o maior mercado da companhia.

(Valor) (Gustavo Brigatto)
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