Sábado, 14 de Dezembro de 2019
Produção

Risco de sobreoferta já entra no radar da avicultura no Brasil

Atual ampliação da capacidade de produção no país pode estar superestimando a demanda futura
São Paulo, 09 de Outubro de 2019 - Ao Valor, a mineira Pif Paf também indicou planos de ampliar a capacidade de produção de frango em 2022. Operando praticamente a plena capacidade, a companhia planeja investir cerca de R$ 300 milhões para ampliar a produção em Palmeiras de Goiás (GO), disse o presidente do conselho de administração, Luiz Calos Costa, em recente entrevista.

Embora os projetos levem alguns anos para afetar a relação entre oferta e demanda, há quem alerte para a possibilidade de o ciclo positivo para os frigoríficos de frango estar com dias contados. Para o longo prazo, a avaliação é que os projetos de expansão podem estar superestimando a demanda global - o choque de oferta provocado pela epidemia de peste suína na China não é eterno.

Mas os riscos não estão restritos ao longo prazo. Se até 2020 as vendas não deslancharem, um excesso de oferta estará contratado. “Pintaram exportações excepcionais, mas elas não estão acontecendo. A expectativa é uma e a realidade é outra”, afirmou José Carlos Godoy, secretário-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Pintos de Corte (Apinco). Segundo ele, as agroindústrias seguem ampliando os alojamentos de aves matrizes, o que terá reflexo na oferta de carne de frango em meados do próximo ano. “Vamos ver se até lá o mercado responde como se esperava, mas é preocupante”, acrescentou Godoy.

O ritmo mais lento das exportações levou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) a cortar a projeção de crescimento. Na última sexta-feira, em evento em São Paulo, o diretor de relações institucionais da entidade, Ariel Mendes, previu que os embarques de carne de frango crescerão 1% em 2019. A estimativa é mais modesta que a divulgada no fim de agosto pela ABPA, que indicava um avanço entre 4% e 5%.

“Até agora, não se concretizou tudo aquilo que se esperava. O país asiático abateu muitos suínos sadios e isso segurou um pouco as compras deles. Contudo, eles estão tendo que usar seus estoques estratégicos de forma mais forte”, afirmou Mendes.

“Nós pagamos a língua. A gente imaginava que os chineses iam sair comprando tudo, mas isso não se confirmou porque eles são muito habilidosos para negociar”, admitiu Mendes. Para o próximo ano, a ABPA está “cautelosa” em fazer estimativas, segundo o diretor.

“A gente ainda não sabe o que vai acontecer na China”, afirmou o diretor da ABPA. A China é maior compradora de carne de frango do Brasil e, neste ano, ampliou as compras em 20% (66 mil toneladas), para 395 mil toneladas entre janeiro e setembro. No entanto, Hong Kong - tradicional entreposto para o mercado chinês - reduziu a importação de carne de frango brasileira em 13,7%, para 140,1 mil toneladas. Também houve redução nas vendas à Africa do Sul e União Europeia. Juntos, os dois mercados deixaram de comprar 67,6 mil toneladas, praticamente o mesmo volume adicional vendido à China.

Nesse cenário, o receio com a oferta de frango também começou a circular no mercado financeiro. “Os sinais de virada do ciclo estão aí”, disse um analista de um banco brasileiro. Para esse público, é importante antecipar a virada com exatidão para orientar melhor os investidores que apostaram nas ações dos frigoríficos listados na B3. O desafio é descobrir o momento certo para embolsar os lucros acumulados. As ações da BRF, maior produtora de frango do Brasil, já subiram 70% neste ano.

Termômetro importante para essa avaliação, os dados de alojamentos de pintinhos nas granjas indicam uma aceleração da oferta de frango. Segundo a Apinco, 4,3 bilhões de pintinhos foram alojados de janeiro a agosto, alta de 6,7%.

Ao Valor, o presidente da Aviagen na América Latina, Ivan Lauandos, comentou o risco. “Não podemos exagerar na dose de crescimento”. O alerta tem peso. A Aviagen é a maior fornecedora de genética avícola do país e, portanto, é diretamente beneficiada pela expansão da produção. Mas Lauandos disse preferir um aumento moderado a uma expansão desenfreada, sem sustentabilidade econômica.

À luz do ânimo dos empresários com o impacto da peste suína africana na China (ver matéria abaixo), as advertências para um possível excesso de oferta de frango podem parecer exageradas, mas não são despropositadas. Historicamente, períodos de boa rentabilidade despertam o espírito animal dos empresários, que costumam intensificar os abates. O problema é que, geralmente, não há demanda para toda a oferta adicional, o que derruba preços. Se a sobreoferta vier a acompanhada de quebra de safra de grãos, uma crise de rentabilidade pode se instalar.

No momento, é preciso ponderar, os indicadores de rentabilidade do ano são positivos. Entre janeiro e setembro, o preço médio da carne de frango congelada no atacado de São Paulo subiu 25% na comparação anual, segundo levantamento do Cepea/Esalq/USP. Nesse mesmo período, a média do indicador Esalq/BM&FBovespa para o milho (insumo da ração) teve alta de 3,3%.

Procurado, o vice-presidente de mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, disse não ver risco de sobreoferta no médio prazo. “Não há sobrealojamento”, sustentou, acrescentando que o número de aves matrizes alojadas em 2018 - o que se traduz no frango disponível em 2019 - foi o menor em cinco anos. O ritmo mais fraco das exportações nos últimos dois meses foi um reflexo de “ajustes comerciais” pontuais no Japão e no Oriente Médio.

Santin também disse que os aportes na ampliação de capacidade visando o longo prazo refletem não só a demanda externa, mas a expectativa de recuperação da economia brasileira. Em nota enviada à reportagem após a publicação da matéria, a ABPA acrescentou que a projeção para a produção brasileira de carne de frango em 2019 segue inalterada - deve crescer 1,4%, para 13 milhões de toneladas. A associação também reiterou que não há sobreoferta e que, neste ano, as exportações crescerão.

Ponderações à parte, o fato é que a euforia chinesa encontra céticos. “Não estamos sozinhos no mundo. Outros países também estão se preparando para atender a China”, sintetizou Godoy, da Apinco.
(Valor) ( Por Luiz Henrique Mendes e Marcela Caetano )
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