Sábado, 07 de Dezembro de 2019
Saúde Animal

Os perigos dos antibióticos para animais saudáveis
Nova Iorque, EUA, 15 de Julho de 2019 - Diante de um aumento acentuado nas infecções resistentes a medicamentos, a Organização Mundial da Saúde emitiu um apelo aos pecuaristas dois anos atrás: “Parem de usar antibióticos em animais saudáveis". Mas, na World Pork Expo, grande feira da indústria de suínos realizada no ano passado em Des Moines, Iowa, uma das maiores fabricantes de remédios para animais de corte estava promovendo a mensagem oposta. “Não espere pelo Porco Zero", alertava um cartaz de um balcão mantido pela farmacêutica Elanco.
A campanha de marketing da empresa falando no Porco Zero incentivava os pecuaristas a aplicar antibióticos a todos os porcos de suas varas em vez de esperar para tratar um eventual surto de doença causado por um Paciente Zero desconhecido. A estratégia de sedução parecia funcionar com as fazendas industriais, onde as condições de superlotação e falta de higiene levaram a uma crescente dependência na intervenção com drogas. Os panfletos também detalhavam como uma dieta diária envolvendo dois antibióticos ajudaria a engordar os porcos, e todo pecuarista sabe que porcos mais gordos são mais lucrativos.
A alta dos germes resistentes a medicamentos é um dos problemas mais complicados do mundo. O uso excessivo de antibióticos permitiu que os germes desenvolvessem defesas contra eles, tornando ineficaz um número cada vez maior de remédios. O uso global de antibióticos deve aumentar muito conforme a crescente classe média de países como China e Brasil consome mais carne.
Faz tempo que as práticas dos pecuaristas, que há décadas usam imensas quantidades dos remédios destinados aos humanos, são vistas como uma das raízes do problema, mas o papel das empresas que fabricam os medicamentos recebeu menos escrutínio. Os antibióticos continuam sendo importantes para empresas como a Elanco, que se separou da Eli Lilly em setembro. Mesmo desenvolvendo alternativas aos antibióticos para os animais, como vacinas e enzimas, os antibióticos promovidos na campanha do Porco Zero são do tipo cujo uso as autoridades de saúde tentam limitar.
E a Elanco não é uma exceção - suas concorrentes também propõem o uso agressivo de seus próprios antibióticos. “A realidade é que os antibióticos e a pecuária industrial em larga escala cresceram juntos", disse Gail Hansen, que já foi epidemiologista do estado no Kansas e participa de conselhos que lutam contra a resistência a antibióticos.
A Elanco já tinha sido notificada a respeito dos remédios usados na campanha de marketing do Porco Zero. Em 2015, a United States Food and Drug Administration (FDA, vigilância sanitária dos EUA) alertou a Novartis Animal Health, comprada pela Elanco, que o mesmo coquetel de antibióticos era “perigoso” e “descrito de maneira enganosa", pois era oferecido ilegalmente para engordar porcos, e não apenas para tratar doenças.
Um dos remédios, a tiamulina, é um sucesso de vendas para a Elanco; a OMS o considera importante para a medicina humana, mas as autoridades americanas discordam. A campanha do Porco Zero anuncia os benefícios de somar a tiamulina à clortetraciclina, remédio que autoridades americanas e internacionais consideram importante para a medicina humana.
O diretor executivo da Elanco, Jeffrey Simmons, disse que a empresa decidiu parar de distribuir os panfletos da campanha do Porco Zero depois que o New York Times começou a fazer perguntas a respeito dela. Ele acrescentou que o material “não consistia necessariamente em propaganda enganosa". Shabbir Simjee, diretor médico da Elanco, disse que remédios como os da campanha “jamais seriam aplicados". Ele comparou a situação a crianças em um berçário: “Se uma criança fica com o nariz escorrendo, logo vemos que a sala inteira fica gripada".
O elo entre o uso exagerado dos antibióticos em animais de corte e o seu efeito na saúde humana é duplo: conforme as bactérias desenvolvem defesas contra remédios amplamente usados nos animais, esses mecanismos de defesa podem se espalhar para outras bactérias que infectam os humanos; e os germes resistentes são transmitidos dos animais de corte para os humanos - por meio da carne mal passada, do contato de fezes animais com o suprimento de água ou quando os trabalhadores entram em contato com os animais.
Novas regras da FDA que entraram em vigor no fim do governo Obama proibiram as fazendas de engordar os animais misturando à sua ração antibióticos considerados importantes para a medicina humana. As regras, bem como o aumento na demanda do consumidor por carne livre de antibióticos, reduziu significativamente o seu uso em 2017. Mas esses remédios ainda são oferecidos aos porcos e ao gado nos EUA.
Ted McKinney, ex-executivo da Elanco, foi nomeado recentemente como secretário da agricultura do presidente Donald Trump. Em reunião em meados do ano passado em Roma, ele disse a autoridades internacionais de vigilância sanitária que a atenção delas estava demasiadamente voltada para o consumidor, às custas daqueles que trabalham para atender a demanda global por alimento. “Temos que entender que são eles os nossos consumidores", disse o secretário.
‘Líder motivado’
Em 2015, Simmons participou de uma cúpula da Casa Branca prometendo limitar o uso de antibióticos. Thomas R. Frieden, então diretor dos Centros para o Controle e Prevenção de Doenças, alertou que a resistência a antibióticos “poderia resultar no esvaziamento da maleta de medicamentos justamente quando mais precisaremos dela".
Simmons descreve a si mesmo como um “líder motivado” na missão de combater a fome. Enquanto os microbiólogos enfatizam a urgência do combate à resistência a antibióticos, veteranos da indústria agroquímica dizem que essa preocupação deve ser equilibrada com a crescente demanda por alimento.
Simmons lembra do tempo que passou no Brasil, quando um agoniado segurança do seu condomínio pediu ajuda para alimentar os dois filhos. “Não trabalho pelo lucro nem pela recompensa financeira", disse ele (seu salário total no ano passado foi de US$ 5,4 milhões).
A documentação financeira da Elanco e da rival Zoetis, nascida da Pfizer em 2013, mostram que as duas têm vendas de aproximadamente US$ 2 bilhões anuais em antibióticos para animais de corte. Essas vendas representam mais de um terço da movimentação total da Elanco.
Del Holzer, ex-diretor de produtos de carne e frango da equipe de alimentos para a indústria global da Elanco, disse que a empresa e suas rivais querem adotar medidas positivas, até certo ponto. “Mas eles dizem, ‘A situação fará com que os acionistas fiquem furiosos conosco’”, disse Holzer, que agora trabalha na concorrente Cargill.
Proliferação dos antibióticos
Quando foram descobertos há mais de um século, ninguém pensou em oferecer antibióticos aos animais. Então, em 1950, uma empresa americana chamada Lederle Laboratories anunciou que os frangos cresciam mais rápido quando alimentados com clortetraciclina. Já no início dos anos 1960, quase metade dos antibióticos para animais tinha como objetivo engordá-los.
Mas os cientistas já tinham reservas. Em 1969, o relatório da Comissão Swann, encomendado pelo Parlamento Britânico, concluiu que o problema da resistência aos antibióticos era significativo. Em 1976, um estudo publicado na revista Nature mostrou que cepas resistentes da E. coli poderiam ser transmitidas de frangos alimentados com antibióticos para outros frangos, e em seguida para os granjeiros.
A indústria farmacêutica reagiu. Em 1997, pesquisadores da Elanco estiveram entre os autores de uma longa análise publicada na Journal of Applied Microbiology, afastando a preocupação com o uso de antibióticos em animais, dizendo, “Nos vemos diante da falta de informação, de um muro de ignorância".
Estimativas de acadêmicos sugerem que até 80% dos antibióticos vendidos nos EUA sejam usados em animais de corte. Mas a indústria tentou desmerecer tais projeções enquanto faz lobby para impedir a revelação de novas informações a respeito do uso de antibióticos. “Os patógenos mais graves não estão ligados aos antibióticos usados na ração animal", disse Simmons.
“Das 18 principais ameaças resistentes a antibióticos acompanhadas pelos CCPDs, apenas duas, campylobacter e salmonella não-tifoide, estão associadas a animais.” Mas essas declarações repetidas à exaustão referem-se apenas a cepas transmitidas no alimento, como a salmonella resistente a antibióticos, que pode ser encontrada no frango cru, por exemplo, ignorando toda a miríade de formas de transmissão dos patógenos.
Há pesquisas cada vez mais numerosas estabelecendo elos entre a Clostridium difficile, ou C. diff, em animais de corte e humanos, considerada uma ameaça urgente pelos CCPDs. O uso de antibióticos de espectro amplo nos animais de corte proporciona “uma vantagem de sobrevivência para cepas da C. difficile resistentes a antibióticos", de acordo com um estudo de 2018 realizado por pesquisadores australianos. Estudos semelhantes foram realizados para a E. coli e o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, conhecido como MRSA.
“Vimos bactérias resistentes a antibióticos capazes de contaminar o ambiente pela água e pelas partículas no ar, entrando em contato com a pele dos trabalhadores e trocando genes com outras bactérias", disse Sarah Sorscher, funcionária da ONG Centro para a Ciência pelo Interesse Público. “E, em termos científicos, não estamos entrando em detalhes.”
Mudança no marketing
Em 2017, quando a FDA baniu de fato o uso de antibióticos importantes para a medicina na engorda de animais de corte, seu consumo teve queda de um terço. Mas os especialistas observam agora técnicas de marketing que apresentam o uso rotineiro de antibióticos como uma necessidade “proativa” cujo efeito colateral seria o ganho de peso. Holzer, ex-executivo da Elanco, disse que a empresa criou “sites específicos para diferentes mercados” sabendo que “há coisas que não de pode dizer nos EUA, mas podem ser mencionadas na Polônia, por exemplo".
Colleen Dekker, porta-voz da Elanco, disse que a empresa não inclui mais a “promoção do crescimento” - ganho de peso dos animais - como uso aprovado para antibióticos considerados mundialmente importantes para a medicina. Mas, no caso do Porco Zero, a empresa vê problema apenas no marketing. No futuro, disse Colleen, tais medicamentos seriam vendidos “de acordo com uma perspectiva mais ligada à saúde” e nem tanto sob a “ótica do ganho de peso". / Tradução de Augusto Calil.
(The New York Times/Estadão Internacional) (Danny Hakim e Matt Richtel)
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