Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
Empresas

JBS terá primeiro CEO que não é da família Batista
São Paulo, SP, 05 de Dezembro de 2018 - Pela primeira vez em 65 anos, a JBS será liderada por um executivo de fora da família Batista. Contratado em fevereiro de 2013 para comandar o embrião do que hoje é a Seara, Gilberto Tomazoni foi promovido ao cargo de CEO global.

A indicação, oficializada ontem pelo conselho de administração, ocorre no momento em que a maior companhia de carnes do planeta luta para deixar para trás os traumas da delação premiada de Joesley e Wesley Batista e se prepara para retomar as aquisições. Conforme o Valor antecipou, a americana Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, disputa os ativos que a BRF colocou à venda na Europa e na Tailândia.

Bem-sucedida na tentativa de reduzir a dívida, a JBS ainda tem diante de si o desafio de recuperar a imagem comprometida pelos escândalos de corrupção. “Meu compromisso é grande com a imagem da empresa”, disse ao Valor o novo CEO.

Em 2017, quando Wesley Batista foi preso e afastado do comando, a JBS emitiu sinais de que a família Batista não abriria mão da liderança formal da companhia, o que despertou críticas de alguns analistas. Wesley foi substituído pelo patriarca da família e fundador da companhia, José Batista Sobrinho, então com 84 anos. Conhecido como Zé Mineiro, o pai dos irmãos Batista não sairá totalmente de cena — ele seguirá no conselho de administração da JBS.

De certa forma, as críticas de analistas sobre a falta de profissionalização na gestão executiva da JBS encontravam eco no dia a dia da empresa. José Batista Sobrinho era CEO de direito, mas não de fato.

Durante teleconferências com analistas para comentar os balanços trimestrais, Zé Mineiro transmitia apenas saudações aos investidores, mas não participava da apresentação e da etapa de perguntas e respostas. Na prática, já era Tomazoni quem cumpria essa missão, ao lado do presidente da JBS nos EUA, André Nogueira e, mais recentemente, também de Wesley Batista Filho — o responsável pela JBS no Brasil.

Ao indicar Tomazoni como CEO, a JBS deve ganhar pontos com os investidores no quesito governança. Ao Valor, o executivo disse que sua promoção faz parte de um processo natural. “Não tem nada de extraordinário. Acredito que o mercado esperava”. O executivo evita abrir os próximos passos da JBS, mas é certo que a profissionalização da gestão executiva continuará, com a contratação de um diretor de finanças (CFO). Atualmente a JBS não tem um responsável designado para essa função prevista no estatuto.

Conforme o Valor informou em 1º de novembro, a JBS tem um acordo para contratar Guilherme Cavalcanti, atual CFO da Fibria, para o cargo, mas o executivo só deve assumir depois da conclusão da fusão entre Suzano e Fibria, prevista para o início de 2019. Perguntado sobre o assunto, Tomazoni tergiversou.

“O que posso falar hoje é que temos um novo CEO. Outras coisas que podem ou não [ocorrer] também serão processos naturais. A companhia tem dado passos com muita parcimônia”, afirmou ele.

Como pano de fundo para as mudanças em curso, está o projeto de listar a JBS Foods International na bolsa de Nova York. Em diversas ocasiões, a companhia declarou que pretende retomar o plano, engavetado após a delação premiada dos Batista. A avaliação é que a JBS deve se adequar à atual realidade — do faturamento de quase R$ 200 bilhões anuais, 60% é obtido na América do Norte e 13% no Brasil.

Com capital aberto na bolsa de Nova York, a JBS pode se beneficiar da maior liquidez no mercado americano, impulsionando seu crescimento nos próximos anos. Apesar de a JBS ter feito muitas aquisições na última década, ainda há muito espaço para que a companhia no mercado global de carnes. Ao Valor, Tomazoni ressaltou que ainda há grandes oportunidades para crescer de forma orgânica, especialmente no Brasil, onde a empresa produz abaixo da capacidade.

Em outra frente, a JBS quer ter “uma plataforma de distribuição cada vez mais robusta”, disse Tomazoni. Coincidência ou não, a BRF está vendendo a estrutura de distribuição de alimentos na Europa. Perguntado sobre o interesse da Pilgrim’s nesses ativos, Tomazoni, que no passado presidiu a Sadia, não comentou, mas reafirmou que a controlada avalia aquisições.

Segundo ele, a Pilgrim’s tem condições de realizar aquisições “sem fazer dívidas” e prejudicar o compromisso da JBS com o controle da alavancagem. “Não é uma coisa que esta sendo trabalhada agora, mas a Pilgrim’s pode fazer emissão de equity”, afirmou. A JBS tem 75% da Pilgrim’s, que é listada na Nasdaq.

(Valor) (Luiz Henrique Mendes)
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