Sábado, 25 de Maio de 2019
Análise

Cenário da agropecuária é nebuloso para 2019
SÃO PAULO, 30 de Novembro de 2018 - O cenário do agronegócio para o próximo ano poderá ser menos favorável do que o atual. Além dos tradicionais problemas estruturais que afetam o setor, foram incorporados outros que exigem solução rápida.

O país tem algumas pendências internas dos últimos dois anos para serem resolvidas, principalmente no segmento de proteína animal.

Além disso, o futuro governo de Jair Bolsonaro (PSL) entrou em uma discussão desnecessária que, se não foi apenas um embate do período de campanha eleitoral, trará consequências negativas para o agronegócio brasileiro.

No setor de grãos, os custos de produção aumentaram e boa parte dos insumos foi comprada com uma taxa de câmbio elevada. Um fortalecimento do real no próximo ano tira competitividade do produto brasileiro e, consequentemente, renda do produtor.

No setor de proteínas, as coisas são mais complicadas. O Brasil não sabe ainda se os recentes gargalos ocorridos no setor já foram solucionados.

As operações da Polícia Federal no setor de carnes acabaram ou ainda sobra algum rescaldo? E como fica a situação dos funcionários do Ministério da Agricultura envolvidos nessas operações?

A importância do agronegócio para o país é indiscutível, mas alguns acertos deverão ser feitos rapidamente. Buracos na defesa sanitária fazem o país amargar uma queda de 6% nas receitas com carnes neste ano.

Vários dos principais mercados importadores de proteínas impuseram barreiras às carnes brasileiras. A recuperação externa desse setor, que rendeu US$ 15,5 bilhões em 2017, será lenta. Dependerá não só de ajustes do Ministério da Agricultura, mas também das empresas do setor.

As principais quedas ocorrem com as carnes de frango e de suínos. As de aves recuaram 12%, em valores, de janeiro a outubro, principalmente devido a barreiras impostas pela União Europeia.

A suína, que teve o mercado da Rússia fechado —agora reaberto em parte—, obteve 28% menos receitas neste ano.

O próximo ano promete ser um período de ajustes na economia internacional, o que não é bom para o Brasil, grande mercado exportador de commodities. Os Estados Unidos deverão elevar as taxas de juros. Se isso ocorrer, provocará uma desaceleração no consumo mundial.

As perspectivas para os produtores brasileiros de algodão, cultura na qual o país vem obtendo recordes nos últimos anos, é boa. Já para soja e milho, principalmente devido aos estoques mundiais elevados, nem tanto.

Além desses problemas inerentes ao mercado, o setor não poderá conviver com adoções de políticas que afetam as exportações. Uma delas é a da sustentabilidade na produção.

A sustentabilidade deve ser encarada não apenas como um tema ambiental, mas como um equilíbrio econômico e social do setor. Os próprios líderes do agronegócio já estão fazendo o novo governo entender que essas questões são fundamentais.



Líder mundial em exportações de vários produtos agropecuários, o Brasil não pode impor religião e ideologias nas negociações comerciais.

A clara tendência do novo governo apenas para os Estados Unidos pode ser interessante nas áreas de tecnologia e de outros bens, mas não acrescenta muito no agronegócio. Os americanos são os principais competidores do Brasil em grãos e carnes.

A visão antiglobalização do presidente Donald Trump, também apreciada pelo futuro governo do Brasil, está fora de foco e não cabe no orçamento brasileiro.

Só no agronegócio, os Estados Unidos estão gastando bilhões de dólares para manter essa política. Um dinheiro que o Brasil não tem.

O futuro governo deverá evitar também entraves com chineses e árabes, grandes parceiros dos brasileiros no agronegócio. Declarações e atitudes do novo presidente colocaram vários países em estado de alerta com o Brasil.



A questão com a Europa também é delicada e envolve, principalmente, pontos ambientais. Não basta ter produto de qualidade, os brasileiros têm de informar como produzem. É uma exigência atual do mercado internacional.



As mesmas mídias que impulsionaram a campanha eleitoral de Bolsonaro servirão de acompanhamento, em tempo real, para a verificação do que e como se produz no país.



A agropecuária tem de estar preparada, com transparência, para essa proliferação das informações que virão pela frente. Elas poderão facilitar as negociações, mas também significar um aumento das chamadas barreiras técnicas.


As entidades de classe, que acompanham diariamente o setor, deverão assumir papel importante no desenho desse agronegócio de novas exigências e de maior visibilidade


Nos últimos dez anos, graças às exportações de US$ 870 bilhões, o setor deu vida à economia nacional.
(Folha de São Paulo) (Mauro Zafalon)
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