Sábado, 15 de Dezembro de 2018
Análise

No agronegócio, corrente comercial entre EUA e Brasil é difícil, mas equilibrada

Para proteger seus mercados internos, ambos os países impõem barreiras e cotas nas negociações.
São Paulo, SP, 04 de Outubro de 2018 - Donald Trump, presidente do Estados Unidos, não tem o que reclamar do Brasil no que se refere ao setor do agronegócio. Brasileiros e americanos têm um fluxo comercial muito semelhante, inclusive com importações e exportações de produtos similares.

Ambos defendem seus mercados com barreiras comerciais, impondo taxas em vários itens como carnes, suco, etanol e açúcar.

De janeiro a setembro, os brasileiros exportaram US$ 3,1 bilhões para os Estados Unidos no setor de agronegócio, enquanto os americanos colocaram produtos no valor de US$ 2,1 bilhões no Brasil.

Esses valores correspondem a R$ 11,9 bilhões e a R$ 8,1 bilhões, respectivamente, com base no valor do dólar de R$ 3,85 desta quarta-feira (3), segundo o Banco Central.

Trump tem razão, no entanto, em dizer que no Brasil é difícil fazer negócios. É difícil até para os brasileiros.

Lígia Dutra, superintendente de relações internacionais da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), diz que a corrente do agronegócio entre os dois países é equilibrada.

Ela admite, no entanto, que o Brasil enfrenta barreiras de vários países por ser uma economia muito fechada.

"Não existe mais comércio de mão única, e o Brasil precisa fazer um movimento de abertura", diz Dutra. A estratégia é tirar o máximo de vantagens nessas negociações, acrescenta.

Do lado do Brasil, um dos destaques entre as exportações é a celulose, que rendeu US$ 846 milhões até setembro. Em ambos os países, o etanol tem destaque na balança comercial. Dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) mostram que o Brasil gastou US$ 596 milhões com a importação de álcool dos Estados Unidos neste ano.

Já os americanos gastaram US$ 367 milhões no Brasil com a compra desse combustível.

O terceiro produto da lista de exportações do Brasil é o café, commodity que os americanos não produzem. Foram US$ 530 milhões neste ano.

Já os americanos, aproveitando a deficiência industrial brasileira em alguns insumos agropecuários, obtêm boa fatia nesse mercado brasileiro.

Nos nove primeiros meses, as importações brasileiras de insumos químicos (fungicidas, herbicidas, pesticidas etc.) renderam US$ 516 milhões para os americanos. No mesmo período, o Brasil gastou US$ 503 milhões na compra de fertilizantes.

A relação comercial entre os dois países é pequena em outros setores como o de grãos e o de proteínas. Americanos e brasileiros têm um agronegócio similar e disputam praticamente os mesmos mercados em carnes, soja e milho.

No setor de grãos, os produtores dos Estados Unidos levam vantagem no trigo, cereal do qual o Brasil é dependente. O produto americano, porém, nem sempre é competitivo, uma vez que recebe uma tarifa de 10% para entrar no Brasil.

O etanol dos Estados Unidos também sofre barreira comercial no Brasil. A taxa imposta é de 20% para o volume que exceder 600 milhões de litros. Os dois países, porém, dependendo do período do ano, se complementam com importações e exportações desse combustível.

Se o Brasil penaliza o álcool, os Estados Unidos colocam cotas e barreiras sobre o açúcar brasileiro, reduzindo o potencial de exportação nacional.

Os EUA dão uma cota anual de exportações para as usinas brasileiras. O volume que supera essa cota recebe uma tributação pesada.

Um importante mercado para o suco de laranja brasileiro, os Estados Unidos também colocam barreiras ao produto nacional. São US$ 415 por tonelada.

Entre as bebidas, os americanos mandam para o Brasil uísque, licores, vinho e cerveja. Já na lista das bebidas exportadas pelo Brasil aos americanos estão cachaça e espumantes.
(Folha de S.Paulo) (Mauro Zafalon)
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