Domingo, 19 de Agosto de 2018
Logística

Greve dos caminhoneiros paralisa frigoríficos e laticínios
São Paulo, SP, 24 de Maio de 2018 - A continuidade da greve dos caminhoneiros levou à paralisação de frigoríficos de carnes por todo o país e à interrupção parcial de atividades de processamento em laticínios nesta quarta-feira.

A situação dos frigoríficos se deteriorou rapidamente no terceiro dia de bloqueios. Em meio à dificuldade para fornecer ração e ao acúmulo de estoques provocado pela greve, as maiores empresas do setor — BRF e Seara — suspenderam as atividades em várias unidades.

Em todo o Brasil, quase 130 frigoríficos de carnes de frango, suínos e bovinos já pararam, segundo levantamento conjunto da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) divulgado nesta quarta.

Apenas na cadeia produtiva de aves e suínos, mais concentrada no Sul do país, quase 80 unidades tiveram as operações suspensas. “Ontem, já tínhamos oito plantas fechadas. Hoje, temos 78 unidades e, se a greve não parar, amanhã (hoje) passará de 110”, disse o vice-presidente de mercados da ABPA, Ricardo Santin.

Considerando também os frigoríficos de carne bovina, o número pode atingir mais de 200 unidades nesta sexta-feira, o que significaria a interrupção de atividades em plantas que representam mais de 90% da produção nacional de carne, conforme as entidades.

Conforme Santin, a interrupção do tráfego em algumas das mais importantes rodovias do país inviabilizou o fornecimento de ração. Diante disso, há racionamento no fornecimento de alimentação. “Diminuiu a quantidade de ração e estão dando mais água”, afirmou. Em comunicado, a BRF informou que 10% da ração destinada aos produtores não foi entregue, o que afeta a alimentação de quase 1 milhão de animais.

Principal produtora de carne de frango e carne suína do país, a BRF suspendeu (total ou parcialmente) as atividades em 13 frigoríficos. Segundo a companhia, a falta de ração já é “considerável” e, se nada mudar, todo o plantel de aves e suínos poderá ser afetado já “nos próximos dias”.

Na JBS, as paralisações ficaram mais concentradas nos Estados da região Sul, onde estão os frigoríficos da Seara — que atua em aves e suínos. Também houve paralisações, em “menor escala”, em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A JBS é a maior produtora de carne bovina do Brasil.

Santin, da ABPA, observou que a greve dos caminhoneiros acontece em um momento adverso para o setor. Os frigoríficos de aves e suínos já trabalhavam com estoque elevado em razão do embargo russo à carne suína a e do embargo da União Europeia a 20 frigoríficos brasileiros de carne de frango. Nesse cenário, não há como estocar mais produtos, sustentou.

Com a continuidade de greve dos caminhoneiros, os exportadores das carnes de frango e suína caminham para o segundo dia sem conseguir embarcar produtos a exterior. Por dia, o segmento deixa de exportar o equivalente a US$ 30 milhões.

Para os laticínios, o principal impacto da greve é a dificuldade de captar leite nas fazendas produtoras. De acordo com Laércio Barbosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Lácteos Longa Vida (ABLV), a coleta da matéria-prima por parte dos laticínios do país está diminuindo dia a dia.

Ele estimou que, nesta quarta-feira, a captação de leite pelas empresas nas principais bacias leiteiras (MG, GO, PR, SP, SC, e RS) estava em 30% a 50% do volume diário normal. “Se demorar mais um a dois dias para a greve ser encerrada, as indústrias terão que parar a produção. Há algumas fábricas que já pararam parcialmente”, disse Barbosa. Segundo ele, os bloqueios nas estradas se ampliaram muito rapidamente, afetando a captação. A matéria-prima que não é retirada pelos caminhões dos laticínios é perdida.

A Usina de Laticínios Jussara, empresa da qual Barbosa é sócio, já recebeu menos leite por causa da greve. “Ontem, recebemos 70% do volume normal, hoje já caiu para 40%”, afirmou Barbosa. A Jussara já comunicou aos produtores que hoje não fará coleta de leite nas fazendas por causa dos protestos.

A Nestlé, a maior na captação de leite do país, também comunicou a produtores enfrentar “fortes dificuldades de coletar e transportar o leite proveniente das fazendas”. O comunicado, assinado pelo Serviço Nestlé ao Produtor, afirma que os bloqueios dos caminhoneiros já causam desabastecimento de suprimentos e insumos nas fábricas da empresa. “A Nestlé está buscando todas as alternativas possíveis para minimizar as perdas decorrentes dessa situação, entretanto estamos com limitações para garantir o fluxo constante em toda a cadeia”.

Outra gigante na compra de leite cru para processamento, a francesa Lactalis comunicou aos produtores não ter como garantir a continuidade da coleta da matéria-prima nas várias regiões do Brasil onde atua.

Segundo o comunicado, a paralisação prejudica “não apenas a coleta de leite, mas também as atividades da indústria, devido à falta de abastecimento de insumos necessários para sua operação e à impossibilidade da retirada dos produtos acabados das fábricas, apesar de todo o esforço que temos realizado com essa finalidade”.

O Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado de Minas Gerais (Silemg), maior Estado produtor de leite do país, afirmou, em comunicado que os bloqueios geram “risco iminente de desabastecimento de leite e seus derivados”.

A greve, segundo o Silemg, causa “perdas inevitáveis para toda a cadeia leiteira, como consequente descarte de leite in natura, a impossibilidade do transporte e entrega de cargas perecíveis e a não captação de leite nas propriedades rurais, gerando prejuízos aos produtores de leite, indústrias, transportadores e consumidores”.

No ano passado, as indústrias de lácteos do país captaram 24,1 bilhões de litros de leite com inspeção federal. Isso significa, volume médio de 2 bilhões de litros mensais e 66 milhões de litros diários em todo o país.

(Valor) (Redação)
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