Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
Matérias-Primas

Sobra milho, mas há importação
São Paulo, SP, 17 de Maio de 2018 - Embora os estoques fartos oriundos da colheita recorde do ciclo 2016/17 sejam mais do que suficientes para suprir a demanda doméstica e sustentar as exportações de milho do país, adversidades climáticas no Sul deverão reduzir a safrinha desta temporada e levar frigoríficos de frango e suínos da região, principalmente de Santa Catarina, a ampliar importações do cereal do Paraguai, ainda que o vizinho também esteja enfrentando problemas com a seca.

A opção é justificada pelas vantagens logísticas que a compra no Paraguai oferecem em relação ao grão que está estocado ou sendo colhido agora em outras regiões, sobretudo Mato Grosso. Ainda assim, os frigoríficos não pagarão barato pela matéria-prima, uma vez que a quebra da safra argentina fez os preços subirem no mercado internacional.

Ricardo Gouvêa, diretor-executivo da Associação Catarinense de Avicultura (Acav) e do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados (Sindicarne), lembra que no Sul, que abriga a maior parte das granjas de frangos e suínos do país, o déficit de milho é normalmente de 3 milhões a 4 milhões de toneladas por safra.

Analistas estimam que esse déficit deverá cair neste ciclo, já que a demanda dos frigoríficos em geral recuou devido a problemas no mercado de carnes. As vendas externas brasileiras de frango estão prejudicadas pelo embargo da União Europeia a 20 frigoríficos do país, o que diminuiu a demanda por milho e farelo de soja para a produção de aves.

Mas, independentemente dessa questão conjuntural, com as facilidades logísticas as importações do produto paraguaio tem crescido de forma estrutural. Segundo o Ministério da Agricultura, as importações dos Estados do Sul somaram 895,319 mil toneladas em 2017, mesmo após a colheita recorde impulsionada pela safrinha mato-grossense. Tendo em vista as compras já realizada por grupos como Aurora e Seara - neste caso na Argentina -, a expectativa é que o volume aumente neste ano.

A mudança estrutural no abastecimento dos frigoríficos, com maior peso do Paraguai, deverá ser consolidada pelo novo trajeto de conexão transfronteiriça conhecida como "rota do milho", que aproximará ainda mais as lavouras paraguaias dos abatedouros de Santa Catarina.

O movimento não deverá atrapalhar muito a vida dos produtores de milho do Centro-Oeste, que têm viés mais exportador e no momento estão sendo favorecidos pelo aumento das cotações internacionais.

"O porto tem sido uma opção bem atrativa e, com a escalada de preços, vimos bastante negócio de safrinha saindo em Goiás e Mato Grosso", afirma Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado. Na bolsa de Chicago, o milho acumula valorização de 15% no ano. No Brasil, a alta é de 25%, segundo o indicador Esalq/BM&FBovespa.

Mesmo com as exportações aquecidas, observa Ricardo Gouvêa, de Acav e Sindicarne, se a quebra do Paraguai comprometer entregas neste ano os frigoríficos podem contar com subsídios do governo para trazer milho do Centro-Oeste, onde a oferta é mais do que suficiente. De acordo com ele, representantes do segmento já apresentaram o pleito para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

Conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os estoques brasileiros na virada para a safra 2017/18 somavam 17,7 milhões de toneladas. O volume deverá recuar para 16,4 milhões de toneladas ao término da temporada, ainda um patamar dos mais elevados já registrados. A produção total da temporada é estimada em 89,2 milhões de toneladas pela Conab, com consumo interno previsto em 59 milhões.

"Não importa a quebra da safra. Há muito estoque", afirma Luiz Carlos Pacheco, da consultoria Trigo Farinhas. Dados do Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Deral) apontam que 44% dos 2,1 milhões de hectares semeados com a cultura no Estado apresentam condições médias e 16% da área está com desenvolvimento ruim. Até o momento, 38% da área está em floração e 53% em frutificação, estágios em que a escassez hídrica atual pode causar perdas relevantes e reduzir um pouco mais a produção brasileira em 2017/18.

(Valor) (Redação)
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